quarta-feira, 7 de maio de 2014

Silente

Eu quero gritar-te uma verdade
porque eu te devo,
mas até hoje eu não entendo
os meus motivos.
Não engulo aquele desejo
que não se conteve...
não,
que eu não contive.

Por quê?
Eu nem consigo mais sentir da saciedade
o gosto,
só o ranço do erro.

Mais adequado seria dizer:
"Hoje, os meus motivos
eu já não entendo."
Apenas não me parece suficiente,
nada parece, nunca.
E me calo.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Parasita

Tenho tanto medo de te trazer de volta.

Temo arrancar da sepultura do tempo
O teu cadáver,
Reconhecer a minha imagem
Em teus olhos de vidro
E lembrar-me do gosto da tua carne,
Da textura da fibra
Arrebentada
Entre meus dentes,
Da dor
Que eu fiz sangrar e que,
Eu sei,
Ainda jorra
Sem torniquete,

De como eu fui verme.

Não posso nem dizer de mim que
Foi a minha natureza
Podre,
Eu não me sabia parasita.
Ainda assim,
Quando houve fenda,
Falha,
Eu entrei na tua pele.

Que estrago eu fiz quando saí...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fim

Um dia, talvez
eu entenda essa palavra que
de tão curta
é um ponto.

Mas não me furto a implorar por outra que escapa
e se indaga:
"Perdão?"

Eu sempre soube que não a merecia.

Só enxergo agora, porém;
não importa o meu mérito
ou a minha culpa.
Não importa o meu lado, porque

A palavra é sua.
Apenas me pertence a interrogação.

Espero que ela ainda tenha espaço
antes do fim.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Filofagia I - Doce


Degustei-o hesitante, com a ponta da língua, nervosa da insegurança pulsante que é o desconhecido: mas você foi doce e novo, morno, o que eu queria e precisava. Pude sentir apenas a sua superfície, não obstante a minha vontade de ter o que você era, porém senti-me toda com a sua presença, soube de mim como nunca soubera até então; vi-me mulher plena no desejo de ser sua, por perceber tangível uma sabedoria antiga e instintiva, mas calculada. Eu fui o melhor de mim, descortinei-me a essência inédita e enxerguei a minha finalidade.
Eu sonhara seu toque etéreo e lúdico a valsar em minha boca, e ele finalmente veio: baunilha.
O aroma misturou-se aos meus delírios palatáveis. Você foi certeza e insensatez, seduziu-me em direção às vontades primeiras e sensações surreais. Eu quis engoli-lo, eu precisava. Mas fazê-lo cessaria tudo...

Então deixei-o na boca, bala a brincar em minha língua.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Eu mergulhei em ti pra me afogar, oceano.

sábado, 25 de junho de 2011

Promessa ferida

Pensara sempre eu que ela me convinha, então formei com a plenitude um pacto de cobiça; eu quis o acerto, a vantagem, a satisfação. Sonhei um dia ser perfeita.
Bastou-me esse pecado para a eternidade devorar meu fígado, e de uma mancha apenas já não era imaculada. Eu sempre quis ser o que eu quis, mas a perfeição é tão surreal que me assusta, acho que nem imaginar consigo um tecido longo todo branco. Um tecido todo branco não me cobriria um olho... Mas cobre-me a razão. Sou nublada pelo desejo de provar o que é divino, e a culpa desse querer chove uma estampa em minha testa, um pesar em meu peito.
Os meus erros são indeléveis e eu sou humana. Quero lutar contra a minha imensidão de caos, recriar-me sã, ser a essência pura de um ideal... Mas que poder eu tenho? Tenho muita esperança para nenhuma potência... Sou menos que nada, sou um algo, a vergonha do todo. Sou um sonho de fogo alheio à realidade do chão, um emaranhado confuso de palavras amarrado por um coração amargo. Estou frustrada; ferida.

Eu perdi-me em não-ser.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A natureza da minha dor

A minha dor não parte: ela se aloja entre meus rins e é aguda, tem um nome de mulher que ressoa em meus pulmões e brinca de funâmbulo em minhas cordas vocais. A sua falsa pureza me desafia, ela parece tão fresca e tão jovem, sua carne-câncer é tão macia; seduz a incauta que sou, e como me engana, como me engana dentro do coração.


Mas é maravilhosa, em sua personificação do tiro no peito. Sabe sequestrar-me as atenções como um anjo mau, ferindo-me o âmago sempre. Devastando o meu orgulho. A tal conhece-me tão bem quanto a si mesma e nem mesmo desconfia... acerta sem ver, tem a arma perfeita e atinge-me descuidada. Ela é a arma perfeita.


Não há tratamento que resolva, não há cura. Ela é a minha fraqueza, meu passado infeliz, frustrado. Está estampada em mim e eu posso vê-la melhor do que ninguém; ela me faz sofrer, mais do que qualquer um. Lembra-me os caminhos tortuosos, os opróbrios segredados. Nem mesmo sabe deles, em mim, ela atua imagem, e não essência, uma impressão construída unicamente por minhas inseguranças.


Essa menina, essa mulher.... é um mal que não passa de um reflexo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Tão cedo já é tarde

O amor me era tão mais doce antes de desembrulhado; descoberto, ele se nega aos meus caprichos. Quanto mais o vejo, mais o sinto, menos o tenho. Aquele todo prazer e plenitude dos teus braços mais e mais franzem-me o cenho, tu sabes... e a palavra que a tua boca não tece não pode aquecer meu coração errante. Coração perdido, perdido em sua certeza solitária. Como eu era feliz imersa em dúvidas, espontânea em minha ignorância crua de neófita. Eu te amo, o discurso me condena, arrasta-me ao fim de nós dois.
Perdoa-me por ocasionar o nosso ocaso.


Por prematura a fruta, mais velozmente ela apodrece: come-a toda antes que seja tarde.

sábado, 27 de novembro de 2010

Oceano

Esse teu mar me conquista na ressaca, no tom ciano do teu olhar fixo, teu oceano. Caminhando eu descubro das ondas a areia, enquanto tua brisa refresca-me o rosto, o peito, a nuca; ajoelho-me nas dunas cruas.
Encaro-te, a plenitude do ser há de residir toda e sacra no teu espelho d'água. Desejo mergulhar em ti, em marés de humor, no profundo abissal do teu inconsciente. Eu quero complementar a diversidade da tua existência. Ando em direção ao teu sorriso claro, à tua boca aberta, o mar. Tornas a beijar-me os pés descalços, avançando sobre as minhas pernas nuas, e perco-me em abraços densos.
Nos meus lábios arde o sal do teu corpo, o gosto orgástico tatua-se em meu palato. Assim, minha língua molda a palavra arrancada do meu peito, jogada no teu colo, e ela permanece à tua superfície. Choro, não sei mais se és tu que me salgas ou o meu pranto: não me importa.
Essas águas tão revoltas me consomem. Mar de insanos anseios, puseste o meu juízo à deriva.
Eu mergulhei em ti pra me afogar, oceano.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Nefelibata

Em meus caminhos nunca vi tão triste
Alma a errar-se em tanta linha reta,
E percebi da essência do poeta
Um trôpego porquê que inexiste:

O seu abarrotado caos insiste
Em perturbar-nos logo a face quieta
E pintar-se de tons que nunca viste,
Negando o não ser que o acarreta.

Pobre de quem nem mesmo pisa o chão,
Sobrevoando às nuvens a razão,
Íntimo da realidade abstrata;

Nunca há de saber do sim ou do não,
A esmo na agridoce condição
Eterna de viver nefelibata.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mi

Mi mi mi mi mi mi mi.

:D

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Véu


Este tecido de ilusão que me recobre dita meus passos a partir do estampado. Esconde-me um todo, limita-me da vida. Enxergo através de sua pobre diafaneidade o universo maculado, borrado de minhas impressões mundanas, bordado de experiências antigas. Mal posso divisar dos corpos os contornos, ou dar nome aos tons que se confundem com tristes pigmentos do meu véu de viúva. O céu e os lírios que se puserem diante de mim serão sempre negros, os rostos virão sempre amargos, os homens lembrar-me-ão todos de ti. E os meus novos começos apenas me atinarão do nosso fim.

Lamento apenas esta cortina de ti que me deixaste, vetando-me da janela entreaberta para o restante dos meus dias. Agora acordo para somente ver o teto raso do nosso quarto de dormir, levanto-me e visto a mortalha da nossa história. Arrasto-me por anos que se encaixam em doze horas, para então me deitar no leito que compartilho com a sua ausência... E morro um pouco mais a cada suspiro.

Eu só sei morrer nesta vida sem ti...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ver


O crepitar do seu vermelho queima na pele do meu rosto, e a luz que sua força emite conduz meus atos através da ignorância; a cegueira. Meu limite é quebrantado na sua presença:
seu poder confeccionou-me os olhos à razão, fê-los do pó
e tornou-os de vidro. Você vestiu-me por completo de visão,
abriu-me as janelas para o todo que eu não sou.
Sozinho, o seu querer desnudou-me de falhas e despiu-me um universo.
Deu-me o senso, e eu dei ao mundo um sentido.

domingo, 27 de setembro de 2009

Caleidoscópio

Saltam aos meus olhos cores ritmadas, que de tão dançantes e sortidas vestem-me de fluidez luzidia... convidam-me a realizar suas destrezas, sustentam meu corpo fazendo uso de uma força intangível. Agitam-se imprevisíveis, desregradas, fantásticas, descabidas; decerto loucas.
Então mergulho em meu caleidoscópio. Opto por tê-las como únicas companheiras, as cores e a sua inconstância. A liberdade que têm e demonstram me tira o juízo... ou seria a razão? Ensinaram-me que ambos os conceitos não são necessariamente sinônimos, tampouco interdependentes; entretanto ainda não me eduquei a defini-los corretamente, quando separados. Ora, eu sei apenas que flutuo, estou suspensa... mal entendo se existo!
O engraçado é que ainda assim me compreendem. Ou no mínimo me acolhem, brilhantes e sedutoras, durante um espetáculo onde atuo protagonista, coadjuvante ou mera figurante; o que importa é que nunca estou antagônica à ideia principal. Eu sou amparada por essas luzes tão ricas.
E como me confortam! Deito meus problemas em seu manto de inadvertência, de soluções infinitas que nunca se concretizam, sequer duram... cubro-me de descaso: sou feliz. Elas devoram-me, transformam-me por inteiro em nada, então sinto-me plena.
Sei que deixo a incoerente realidade comum para instalar-me noutro mundo surreal. Estou fugindo. Mas desta vez o caos é meu: meu próprio caos simétrico.
Arrisco-me a dizer que me acho.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Obras

O criador à criatura
Se mistura:
Pinta-se a tela com o sangue,
Esculpe-se da própria carne,
Compõe-se do coração
E escreve-se à alma.

Refletem-se
Completos em seus atos
Os artistas,
Não em espelhos;
Nunca em ilusões.

Refletem-nos
Na peça, na canção,
À tinta óleo ou a carvão,
Na realidade
Ou não;
Acima dela.

Expressam-se
E impressionam-nos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Absurdo Venerável

Ela criou-se do impossível, revelou-me. A mim, que disso já bem sabia. E prosseguiu:
"Moldei-me quando ainda eu era essência (e imaterial incerteza etérea). Usei o barro dos deuses e cachos de anjos. Fiz-me da poeira cósmica e do vácuo absoluto, do Sol e da Lua, de Ártemis e Apolo: construí-me na base do que eu ainda criaria. Nasci da premissa de fé humana, nasci vinculada à minha prepotência; e projetei-me protótipo do universo.
E ainda não me sei ao certo: pois se tudo sou, e nada me sabe, sou mistério insolúvel até que haja mais alguém para perscrutar-me.
Sou o complexo mais grave. Confundo-me ligeiramente com os temores da condição humana: a vida, a morte, a ilusão... o nada. A inexistência e o anticristo. Se eu sou tudo também sou a minha negação? Como posso negar-me sendo eu mesma? Difícil mesmo desvendar-me certa...
Sou o seu Deus, seu Alá, seu Jesus Cristo. Sou Shiva, Brahma e Vishnu.
Sou o poder incomensurável.
Sou.
Sou?
Porque eu sei que dependo daqueles que me veneram para ter um nome.
Então pergunto-me: o que existe anônimo?"

Calou-se. E ela sucumbiu ao anoitecer dos homens.

domingo, 31 de maio de 2009

Ventou

Disse um vento que passou certa manhã:
"Levo o tempo na leveza do ar"
Levou então a si mesmo e elevou-se,
Sumiu para nunca mais voltar.

Brincando, pegou-te.

Às vezes sinto a tua essência no cheiro dos dias,
Com os pássaros até escuto-te a trinar.
Contudo, é sempre para o desengano
Que tantos outros ventos vêm me acordar.

É, perdi a tua presença...
Paciência.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Errei. Erro ainda neste instante. Errarei muitas vezes mais, disso estou bem certa: sempre tropeço nas linhas tortas dos meus atos.
Mas creio que assim seja com todos na vida.
Talvez seja exatamente este o teu medo, que eu, a tua esperança de futuro extraordinário, esteja fadada à existência medíocre dos fracassados. Ou talvez apenas queiras a minha (ainda inalcançável) felicidade. Realmente não sei qual é o teu desejo, nem o teu temor.
De fato, sei que por vezes sou dor ao invés de prazer, frustração e não recompensa, estorvo quando precisas de ajuda. Também sou impotente, pois não consigo transportar-me ao lado direito. Estou simplesmente estática, envolta na inércia.

Peço desculpas... mas não a ti. Quero desculpas de mim mesma, preciso merecer a inocência desvinculando-me totalmente daquilo que me condenou culpada, e até que eu me redima ainda tenho muito chão.

Então não te pedirei nada até que mereça... e temo errar nisso também.
Acho melhor que tu me esqueças!

(Já estou pedindo...)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Regras

Nascemos.

Evoluímos entre os dentes,
Criamo-nos para o mundo
Ou dentre mimos e caprichos
Involuímos.

Erramos, aprendemos
Ou tememos nunca aprender;
E para sempre errarmos.

Arrastamo-nos,
Caminhamos,
Passamos a passeio.
Talvez vivamos,
Nunca se sabe.

Duvidamos, esperamos,
Cremos
Assim: variavelmente.

Adoecemos, sofremos,
Curamo-nos,
Somos felizes.

Seguimos e quebramos
As regras
E a certo momento incerto
Paramos,
Deixamos de fazer muito;
Deixamos muitos.

Acabamos.

E nunca sabemos quando,
Nunca saberemos.

Todos nós.