Ela criou-se do impossível, revelou-me. A mim, que disso já bem sabia. E prosseguiu:
"Moldei-me quando ainda eu era essência (e imaterial incerteza
etérea). Usei o barro dos deuses e cachos de anjos. Fiz-me da poeira cósmica e do vácuo absoluto, do Sol e da Lua, de
Ártemis e Apolo: construí-me na base do que eu ainda criaria. Nasci da premissa de fé humana, nasci vinculada à minha prepotência; e
projetei-me protótipo do universo.
E ainda não me sei ao certo: pois se tudo sou, e nada me sabe, sou mistério insolúvel até que haja mais alguém para perscrutar-me.
Sou o complexo mais grave. Confundo-me ligeiramente com os temores da condição humana: a vida, a morte, a ilusão... o nada. A inexistência e o anticristo. Se eu sou tudo também sou a minha negação? Como posso negar-me sendo eu mesma? Difícil mesmo desvendar-me certa...
Sou o seu Deus, seu Alá, seu Jesus Cristo. Sou
Shiva,
Brahma e
Vishnu.
Sou o poder
incomensurável.
Sou.
Sou?
Porque eu sei que dependo daqueles que me veneram para ter um nome.
Então pergunto-me: o que existe
anônimo?"
Calou-se. E ela sucumbiu ao anoitecer dos homens.