terça-feira, 31 de maio de 2016

Tinta

A carência dela é um branco amarelado de bilirrubina
emoldurando os olhos.
Minha vista é embaçada de toda a culpa
por se furtar da paleta o tom de um rio que desce:
lágrima.

Iridescente só
o seu azul,
nós dois somos feitos da noite a transbordar pupilas
e o preto quando é mesmo é aquela cor nenhuma,
cega, ao mesmo tempo que
sólida,
teimosa em tingir tudo de si.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Dos seus olhos

muito omito
o grito
oriundo
dos mistérios do mundo,
persigo o motivo oculto
no vulto,
invisto no que
eu me iludo.

e porque eu li no seu cisco
o risco
do zero ou do gozo triste,
eu fecho, reservo,
remoto do sentido,
um segredo:

eu te-mo!

terça-feira, 16 de junho de 2015

Gêmeos

Aquilo que soube de ti
foi de nós,

todo o nosso,
coisa minha;
somente o meu olhar narciso
em um espelho de vidro

— quebrado,
corta-me ainda
em duas partes:

uma é dor,
a outra, imagem.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Ampulheta

O que eu sei do tempo é a substância erodida,
a areia presa dentro do vidro:

meus dedos percebem apenas
a intangível refração
oblíqua
da essência que me escapa à forma.

Se eu quebro a prisão do tempo,
Eu o tenho
Ou o perco?

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Erosão

O tempo que eu não vejo,
não toco,
não sinto,
estaria lacrado noutros pretéritos,
secreto em falhas, em depressões,
oculto
nos sulcos do relevo da memória?

Esse tempo em minutos, segundos,
momentos,
em um piscar de olhos verdes
ou castanhos ou sedentos,
naqueles quartos em que nos perdemos
por trás de espelhos,
nos cantos dos móveis,
pelas janelas;

Ele, que vai às ruas
escoado na água do choro, do gozo,
ou apenas nas garoas ociosas,
segue corrido, viciado,
para o oceano em que não se mergulha
— se encara —,
aquele
infinito de possibilidades.

Passa em mim:
invade, inunda,
marca.

Será que tenho esse tempo todo?

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mudos

A tua boca entreaberta
fechou a minha,
tranquei a voz na tua garganta
e pendurou-se a palavra.

Seguiu calada a farsa.
Eu até sonhei que gritava em mim
o teu silêncio,

Mas fomos nós que escolhemos ser
surdos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Átrios

Se não digo tudo o que devo,
tudo o que quero,
perdão;
Muito me custa ecoar no outro.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Recomeço em prece

A gente mudou tanto
para não ter mudado
nada.

Nada ainda, nada;
porque tudo que
a onda salga,
lava.

Onda, leva!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Silente

Eu quero gritar-te uma verdade
porque eu te devo,
mas até hoje eu não entendo
os meus motivos.
Não engulo aquele desejo
que não se conteve...
não,
que eu não contive.

Por quê?
Eu nem consigo mais sentir da saciedade
o gosto,
só o ranço do erro.

Mais adequado seria dizer:
"Hoje, os meus motivos
eu já não entendo."
Apenas não me parece suficiente,
nada parece, nunca.
E me calo.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Parasita

Tenho tanto medo de te trazer de volta.

Temo arrancar da sepultura do tempo
O teu cadáver,
Reconhecer a minha imagem
Em teus olhos de vidro
E lembrar-me do gosto da tua carne,
Da textura da fibra
Arrebentada
Entre meus dentes,
Da dor
Que eu fiz sangrar e que,
Eu sei,
Ainda jorra
Sem torniquete,

De como eu fui verme.

Não posso nem dizer de mim que
Foi a minha natureza
Podre,
Eu não me sabia parasita.
Ainda assim,
Quando houve fenda,
Falha,
Eu entrei na tua pele.

Que estrago eu fiz quando saí...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fim

Um dia, talvez
eu entenda essa palavra que
de tão curta
é um ponto.

Mas não me furto a implorar por outra que escapa
e se indaga:
"Perdão?"

Eu sempre soube que não a merecia.

Só enxergo agora, porém;
não importa o meu mérito
ou a minha culpa.
Não importa o meu lado, porque

A palavra é sua.
Apenas me pertence a interrogação.

Espero que ela ainda tenha espaço
antes do fim.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Filofagia I - Doce


Degustei-o hesitante, com a ponta da língua, nervosa da insegurança pulsante que é o desconhecido: mas você foi doce e novo, morno, o que eu queria e precisava. Pude sentir apenas a sua superfície, não obstante a minha vontade de ter o que você era, porém senti-me toda com a sua presença, soube de mim como nunca soubera até então; vi-me mulher plena no desejo de ser sua, por perceber tangível uma sabedoria antiga e instintiva, mas calculada. Eu fui o melhor de mim, descortinei-me a essência inédita e enxerguei a minha finalidade.
Eu sonhara seu toque etéreo e lúdico a valsar em minha boca, e ele finalmente veio: baunilha.
O aroma misturou-se aos meus delírios palatáveis. Você foi certeza e insensatez, seduziu-me em direção às vontades primeiras e sensações surreais. Eu quis engoli-lo, eu precisava. Mas fazê-lo cessaria tudo...

Então deixei-o na boca, bala a brincar em minha língua.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Eu mergulhei em ti pra me afogar, oceano.

sábado, 25 de junho de 2011

Promessa ferida

Pensara sempre eu que ela me convinha, então formei com a plenitude um pacto de cobiça; eu quis o acerto, a vantagem, a satisfação. Sonhei um dia ser perfeita.
Bastou-me esse pecado para a eternidade devorar meu fígado, e de uma mancha apenas já não era imaculada. Eu sempre quis ser o que eu quis, mas a perfeição é tão surreal que me assusta, acho que nem imaginar consigo um tecido longo todo branco. Um tecido todo branco não me cobriria um olho... Mas cobre-me a razão. Sou nublada pelo desejo de provar o que é divino, e a culpa desse querer chove uma estampa em minha testa, um pesar em meu peito.
Os meus erros são indeléveis e eu sou humana. Quero lutar contra a minha imensidão de caos, recriar-me sã, ser a essência pura de um ideal... Mas que poder eu tenho? Tenho muita esperança para nenhuma potência... Sou menos que nada, sou um algo, a vergonha do todo. Sou um sonho de fogo alheio à realidade do chão, um emaranhado confuso de palavras amarrado por um coração amargo. Estou frustrada; ferida.

Eu perdi-me em não-ser.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A natureza da minha dor

A minha dor não parte: ela se aloja entre meus rins e é aguda, tem um nome de mulher que ressoa em meus pulmões e brinca de funâmbulo em minhas cordas vocais. A sua falsa pureza me desafia, ela parece tão fresca e tão jovem, sua carne-câncer é tão macia; seduz a incauta que sou, e como me engana, como me engana dentro do coração.


Mas é maravilhosa, em sua personificação do tiro no peito. Sabe sequestrar-me as atenções como um anjo mau, ferindo-me o âmago sempre. Devastando o meu orgulho. A tal conhece-me tão bem quanto a si mesma e nem mesmo desconfia... acerta sem ver, tem a arma perfeita e atinge-me descuidada. Ela é a arma perfeita.


Não há tratamento que resolva, não há cura. Ela é a minha fraqueza, meu passado infeliz, frustrado. Está estampada em mim e eu posso vê-la melhor do que ninguém; ela me faz sofrer, mais do que qualquer um. Lembra-me os caminhos tortuosos, os opróbrios segredados. Nem mesmo sabe deles, em mim, ela atua imagem, e não essência, uma impressão construída unicamente por minhas inseguranças.


Essa menina, essa mulher.... é um mal que não passa de um reflexo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Tão cedo já é tarde

O amor me era tão mais doce antes de desembrulhado; descoberto, ele se nega aos meus caprichos. Quanto mais o vejo, mais o sinto, menos o tenho. Aquele todo prazer e plenitude dos teus braços mais e mais franzem-me o cenho, tu sabes... e a palavra que a tua boca não tece não pode aquecer meu coração errante. Coração perdido, perdido em sua certeza solitária. Como eu era feliz imersa em dúvidas, espontânea em minha ignorância crua de neófita. Eu te amo, o discurso me condena, arrasta-me ao fim de nós dois.
Perdoa-me por ocasionar o nosso ocaso.


Por prematura a fruta, mais velozmente ela apodrece: come-a toda antes que seja tarde.

sábado, 27 de novembro de 2010

Oceano

Esse teu mar me conquista na ressaca, no tom ciano do teu olhar fixo, teu oceano. Caminhando eu descubro das ondas a areia, enquanto tua brisa refresca-me o rosto, o peito, a nuca; ajoelho-me nas dunas cruas.
Encaro-te, a plenitude do ser há de residir toda e sacra no teu espelho d'água. Desejo mergulhar em ti, em marés de humor, no profundo abissal do teu inconsciente. Eu quero complementar a diversidade da tua existência. Ando em direção ao teu sorriso claro, à tua boca aberta, o mar. Tornas a beijar-me os pés descalços, avançando sobre as minhas pernas nuas, e perco-me em abraços densos.
Nos meus lábios arde o sal do teu corpo, o gosto orgástico tatua-se em meu palato. Assim, minha língua molda a palavra arrancada do meu peito, jogada no teu colo, e ela permanece à tua superfície. Choro, não sei mais se és tu que me salgas ou o meu pranto: não me importa.
Essas águas tão revoltas me consomem. Mar de insanos anseios, puseste o meu juízo à deriva.
Eu mergulhei em ti pra me afogar, oceano.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Nefelibata

Em meus caminhos nunca vi tão triste
Alma a errar-se em tanta linha reta,
E percebi da essência do poeta
Um trôpego porquê que inexiste:

O seu abarrotado caos insiste
Em perturbar-nos logo a face quieta
E pintar-se de tons que nunca viste,
Negando o não ser que o acarreta.

Pobre de quem nem mesmo pisa o chão,
Sobrevoando às nuvens a razão,
Íntimo da realidade abstrata;

Nunca há de saber do sim ou do não,
A esmo na agridoce condição
Eterna de viver nefelibata.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mi

Mi mi mi mi mi mi mi.

:D

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Véu


Este tecido de ilusão que me recobre dita meus passos a partir do estampado. Esconde-me um todo, limita-me da vida. Enxergo através de sua pobre diafaneidade o universo maculado, borrado de minhas impressões mundanas, bordado de experiências antigas. Mal posso divisar dos corpos os contornos, ou dar nome aos tons que se confundem com tristes pigmentos do meu véu de viúva. O céu e os lírios que se puserem diante de mim serão sempre negros, os rostos virão sempre amargos, os homens lembrar-me-ão todos de ti. E os meus novos começos apenas me atinarão do nosso fim.

Lamento apenas esta cortina de ti que me deixaste, vetando-me da janela entreaberta para o restante dos meus dias. Agora acordo para somente ver o teto raso do nosso quarto de dormir, levanto-me e visto a mortalha da nossa história. Arrasto-me por anos que se encaixam em doze horas, para então me deitar no leito que compartilho com a sua ausência... E morro um pouco mais a cada suspiro.

Eu só sei morrer nesta vida sem ti...