sábado, 27 de novembro de 2010

Oceano

Esse teu mar me conquista na ressaca, no tom ciano do teu olhar fixo, teu oceano. Caminhando eu descubro das ondas a areia, enquanto tua brisa refresca-me o rosto, o peito, a nuca; ajoelho-me nas dunas cruas.
Encaro-te, a plenitude do ser há de residir toda e sacra no teu espelho d'água. Desejo mergulhar em ti, em marés de humor, no profundo abissal do teu inconsciente. Eu quero complementar a diversidade da tua existência. Ando em direção ao teu sorriso claro, à tua boca aberta, o mar. Tornas a beijar-me os pés descalços, avançando sobre as minhas pernas nuas, e perco-me em abraços densos.
Nos meus lábios arde o sal do teu corpo, o gosto orgástico tatua-se em meu palato. Assim, minha língua molda a palavra arrancada do meu peito, jogada no teu colo, e ela permanece à tua superfície. Choro, não sei mais se és tu que me salgas ou o meu pranto: não me importa.
Essas águas tão revoltas me consomem. Mar de insanos anseios, puseste o meu juízo à deriva.
Eu mergulhei em ti pra me afogar, oceano.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Nefelibata

Em meus caminhos nunca vi tão triste
Alma a errar-se em tanta linha reta,
E percebi da essência do poeta
Um trôpego porquê que inexiste:

O seu abarrotado caos insiste
Em perturbar-nos logo a face quieta
E pintar-se de tons que nunca viste,
Negando o não ser que o acarreta.

Pobre de quem nem mesmo pisa o chão,
Sobrevoando às nuvens a razão,
Íntimo da realidade abstrata;

Nunca há de saber do sim ou do não,
A esmo na agridoce condição
Eterna de viver nefelibata.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mi

Mi mi mi mi mi mi mi.

:D

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Véu


Este tecido de ilusão que me recobre dita meus passos a partir do estampado. Esconde-me um todo, limita-me da vida. Enxergo através de sua pobre diafaneidade o universo maculado, borrado de minhas impressões mundanas, bordado de experiências antigas. Mal posso divisar dos corpos os contornos, ou dar nome aos tons que se confundem com tristes pigmentos do meu véu de viúva. O céu e os lírios que se puserem diante de mim serão sempre negros, os rostos virão sempre amargos, os homens lembrar-me-ão todos de ti. E os meus novos começos apenas me atinarão do nosso fim.

Lamento apenas esta cortina de ti que me deixaste, vetando-me da janela entreaberta para o restante dos meus dias. Agora acordo para somente ver o teto raso do nosso quarto de dormir, levanto-me e visto a mortalha da nossa história. Arrasto-me por anos que se encaixam em doze horas, para então me deitar no leito que compartilho com a sua ausência... E morro um pouco mais a cada suspiro.

Eu só sei morrer nesta vida sem ti...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ver


O crepitar do seu vermelho queima na pele do meu rosto, e a luz que sua força emite conduz meus atos através da ignorância; a cegueira. Meu limite é quebrantado na sua presença:
seu poder confeccionou-me os olhos à razão, fê-los do pó
e tornou-os de vidro. Você vestiu-me por completo de visão,
abriu-me as janelas para o todo que eu não sou.
Sozinho, o seu querer desnudou-me de falhas e despiu-me um universo.
Deu-me o senso, e eu dei ao mundo um sentido.

domingo, 27 de setembro de 2009

Caleidoscópio

Saltam aos meus olhos cores ritmadas, que de tão dançantes e sortidas vestem-me de fluidez luzidia... convidam-me a realizar suas destrezas, sustentam meu corpo fazendo uso de uma força intangível. Agitam-se imprevisíveis, desregradas, fantásticas, descabidas; decerto loucas.
Então mergulho em meu caleidoscópio. Opto por tê-las como únicas companheiras, as cores e a sua inconstância. A liberdade que têm e demonstram me tira o juízo... ou seria a razão? Ensinaram-me que ambos os conceitos não são necessariamente sinônimos, tampouco interdependentes; entretanto ainda não me eduquei a defini-los corretamente, quando separados. Ora, eu sei apenas que flutuo, estou suspensa... mal entendo se existo!
O engraçado é que ainda assim me compreendem. Ou no mínimo me acolhem, brilhantes e sedutoras, durante um espetáculo onde atuo protagonista, coadjuvante ou mera figurante; o que importa é que nunca estou antagônica à ideia principal. Eu sou amparada por essas luzes tão ricas.
E como me confortam! Deito meus problemas em seu manto de inadvertência, de soluções infinitas que nunca se concretizam, sequer duram... cubro-me de descaso: sou feliz. Elas devoram-me, transformam-me por inteiro em nada, então sinto-me plena.
Sei que deixo a incoerente realidade comum para instalar-me noutro mundo surreal. Estou fugindo. Mas desta vez o caos é meu: meu próprio caos simétrico.
Arrisco-me a dizer que me acho.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Obras

O criador à criatura
Se mistura:
Pinta-se a tela com o sangue,
Esculpe-se da própria carne,
Compõe-se do coração
E escreve-se à alma.

Refletem-se
Completos em seus atos
Os artistas,
Não em espelhos;
Nunca em ilusões.

Refletem-nos
Na peça, na canção,
À tinta óleo ou a carvão,
Na realidade
Ou não;
Acima dela.

Expressam-se
E impressionam-nos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Absurdo Venerável

Ela criou-se do impossível, revelou-me. A mim, que disso já bem sabia. E prosseguiu:
"Moldei-me quando ainda eu era essência (e imaterial incerteza etérea). Usei o barro dos deuses e cachos de anjos. Fiz-me da poeira cósmica e do vácuo absoluto, do Sol e da Lua, de Ártemis e Apolo: construí-me na base do que eu ainda criaria. Nasci da premissa de fé humana, nasci vinculada à minha prepotência; e projetei-me protótipo do universo.
E ainda não me sei ao certo: pois se tudo sou, e nada me sabe, sou mistério insolúvel até que haja mais alguém para perscrutar-me.
Sou o complexo mais grave. Confundo-me ligeiramente com os temores da condição humana: a vida, a morte, a ilusão... o nada. A inexistência e o anticristo. Se eu sou tudo também sou a minha negação? Como posso negar-me sendo eu mesma? Difícil mesmo desvendar-me certa...
Sou o seu Deus, seu Alá, seu Jesus Cristo. Sou Shiva, Brahma e Vishnu.
Sou o poder incomensurável.
Sou.
Sou?
Porque eu sei que dependo daqueles que me veneram para ter um nome.
Então pergunto-me: o que existe anônimo?"

Calou-se. E ela sucumbiu ao anoitecer dos homens.

domingo, 31 de maio de 2009

Ventou

Disse um vento que passou certa manhã:
"Levo o tempo na leveza do ar"
Levou então a si mesmo e elevou-se,
Sumiu para nunca mais voltar.

Brincando, pegou-te.

Às vezes sinto a tua essência no cheiro dos dias,
Com os pássaros até escuto-te a trinar.
Contudo, é sempre para o desengano
Que tantos outros ventos vêm me acordar.

É, perdi a tua presença...
Paciência.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Errei. Erro ainda neste instante. Errarei muitas vezes mais, disso estou bem certa: sempre tropeço nas linhas tortas dos meus atos.
Mas creio que assim seja com todos na vida.
Talvez seja exatamente este o teu medo, que eu, a tua esperança de futuro extraordinário, esteja fadada à existência medíocre dos fracassados. Ou talvez apenas queiras a minha (ainda inalcançável) felicidade. Realmente não sei qual é o teu desejo, nem o teu temor.
De fato, sei que por vezes sou dor ao invés de prazer, frustração e não recompensa, estorvo quando precisas de ajuda. Também sou impotente, pois não consigo transportar-me ao lado direito. Estou simplesmente estática, envolta na inércia.

Peço desculpas... mas não a ti. Quero desculpas de mim mesma, preciso merecer a inocência desvinculando-me totalmente daquilo que me condenou culpada, e até que eu me redima ainda tenho muito chão.

Então não te pedirei nada até que mereça... e temo errar nisso também.
Acho melhor que tu me esqueças!

(Já estou pedindo...)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Regras

Nascemos.

Evoluímos entre os dentes,
Criamo-nos para o mundo
Ou dentre mimos e caprichos
Involuímos.

Erramos, aprendemos
Ou tememos nunca aprender;
E para sempre errarmos.

Arrastamo-nos,
Caminhamos,
Passamos a passeio.
Talvez vivamos,
Nunca se sabe.

Duvidamos, esperamos,
Cremos
Assim: variavelmente.

Adoecemos, sofremos,
Curamo-nos,
Somos felizes.

Seguimos e quebramos
As regras
E a certo momento incerto
Paramos,
Deixamos de fazer muito;
Deixamos muitos.

Acabamos.

E nunca sabemos quando,
Nunca saberemos.

Todos nós.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Palavra

Foi uma palavra não dita
Maldita!
Uma palavra que não foi.

Faltou-lhe sair, libertar-se,
Faltou-lhe existir;
Faltou.

E nada se ouviu,
Pois não houve nada!

Talvez agora eu saiba:
Maior impacto tem o discurso escondido

Que não viveu;
Que eu não vivi;
Que não me veio.

terça-feira, 14 de abril de 2009

No Caminho

Esqueci-me no teu peito há tanto tempo, no entanto sequer notei a minha ausência. Ainda moro em ti, e ainda morro. Morro a cada segundo separada de mim mesma e vivo a angústia de não te ter por perto. Existo no limbo de nós dois, entre a minha sanidade e o teu ser tangível. Estou presa entre passado e futuro, enquanto o presente eu ignoro.
Não sei aonde quero chegar, portanto não dou passo algum. Apenas mantenho a ligação ao sentimento morto que nós demos à luz, e vez ou outra enxergo as suas correntes impedindo-me o movimento, seja adiante ou de recuo. Fico apenas parada, pois me atenho à estrada que nunca terminaremos juntos.
Talvez eu pense demais em ti, talvez te sinta de menos. Talvez eu sinta a tua falta no caminho da minha vida: cuido que nunca soube que direção tomar antes de sermos dois... cuido que nunca fui antes de sermos.
E é triste sentir-me impotente diante das possibilidades. Imagino-te cruel, então. Suaviza a dor de não querer amar-te ainda amando. És meu carrasco, agora que me convém. E tu serás carrasco até que eu possa me libertar da tua sombra...
Porque vejo finalmente que há somente a tua sombra comigo. Tu mesmo foste embora há tempos, mudaste o destino repentinamente. Abandonaste o que criamos. Abandonaste-me.
Ainda te quero no meio do meu caminho... quero tropeçar em tua presença.
Aparece!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Mentira feita

Revolto-me com a tua cara lavada, com tuas mentiras, peças, dramas. Enoja-me esse vício de menosprezar a perspicácia dos outros seres viventes, a tua mania de copiar as virtudes que não te pertencem, a insistência em reinventar a cada cinco segundos todo e qualquer aspecto de tua vida. Odeio-te em todo o teu cinismo, apenas nele, e percebo sempre que engana a ti mesma. Eu posso ler-te como um livro aberto, preto no branco. Eu sei quem tu és.
Enfim cansei-me da tua falta de sinceridade, da tua dissimulação. Logo eu, que gosto tanto de ti! Gosto mesmo, eu te amo. Atribuo-te um valor absurdo, de preciosidade, tesouro. Tu és para mim inigualável, porque te enxergo deveras. Mas não posso dizer mais que em ti confio...
E peço:
Não teças essa teia inescrupulosa. Vive no chão, vive. Vive a tua vida! Essa da qual tu foges a cada vislumbre de liberdade. Imploro-te que não mintas mais...
Porque eu já sei.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Omegle

Stranger: Hello
You: Hallo!
Stranger: How u?
You: Wie geht's dir?
You: Wo wohnst du?
Stranger: Sorry, only speak English
You: Seulement anglais?
You: Isso não é bom...
Your conversational partner has disconnected.

*

You: Boo!
Stranger: hi
Stranger: q
You: I'm dead
You have disconnected

*

Stranger: 41
You: 41?
You: Is that a game?
You: Ok... I got it...
Stranger: yeah
You: 42!
Stranger: i'm winner
Your conversational partner has disconnected.

*

Stranger: hi!
You: Quem és tu?
Stranger: what, is that french?
You: Eu posso entender-te, mas a ti sobra a ignorância
Stranger: spanish?
You: Quem é o subdesenvolvido agora?

:B

sexta-feira, 27 de março de 2009

Boneca

Fiz-me inteira em porcelana, há tempos.
De propósito...
Eu quis, então virei boneca.
Pintei meu rosto,
Trancei os cabelos,
Fechei a boca,
Emudeci.
Vivi estátua
E não vivi:

Era o enfeite da sua mesa de cabeceira
E assistia a seu despertar
Calada, quieta,
Como eu podia.

Então de você me enraiveci,
Pois levantava e sumia!
(Eu ainda me pergunto aonde ia)

Mas ontem, meu rapaz,
Chegou o dia.
E eu ecoei um surdo "basta!" em minhas vísceras.

Espiei o precipício do seu móvel,
Atirei-me ao chão a meu modo inverossímil,
Explodi em mil pedaços de carne e osso.

Agora acho que acordei humana.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Resposta

Siempre que te pregunto
Que, cuándo, cómo y dónde
siempre me respondes
Quizás, quizás, quizás
Y así pasan los días
Y yo, desesperando
Y , contestando
Quizás, quizás, quizás
Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo que más quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?

Entre nós é sempre talvez, e o que há de concreto mesmo é o nunca. Vivermo-nos seria bom de quando em vez; preciso da tua influência na minha rotina, das tuas palavras formando a minha voz. Adivinhar as tuas reações é meu passatempo mais querido, e constantemente me pego pensando o que farias tu em meu lugar. Quando estou aqui e estás lá, e quero falar-te em pensamentos, finjo que me respondes seco da distância, mas não me importo: tua voz acalma-me até quando vinda de mim mesma, e eu durmo tranquila às noites vazias.
Mas estes dias fizeram-me outra. Alguém distante. Distante de ti, talvez até de si mesma. Não me sinto confortada apenas te imaginando, e desconfio que me perdi da tua essência. Não sei mais quem és tu na minha vida, e então temo por nós dois e por nossos caminhos. Esta falta de ti reprogramou minhas tendências e eu vivo outra vida: uma vida isenta da tua consciência. Eu vivo sozinha agora, e nem mesmo a tua invenção me acompanha.
Eu sinto a tua falta como não te sinto mais. E ainda imagino-te sempre incongruente com o fatual. Agora quero mesmo a tua presença, o que tu tens de tangível. Preciso de teus dedos, teus cabelos, braços, unhas, lábios: o teu corpo. Quero a tua voz roçando a minha pele e condicionando a minha resposta. Um sim ou um não. Deixemos "talvez" para nunca.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Amanhã

O hoje separa-me de ti
E tua ausência governa o meu dia,
Um dia inteiro:
Vinte e quatro horas.
O relógio, finalmente,
Substituiu o calendário;
E espero um amanhã
Em nome de todo um mês
Passado.

Amanhã tu estás aqui
E o amanhã já está aqui.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Elisa

Eu gritei aos ouvidos surdos da noite, e meu peito apertou meu coração. Corria como um débil animal perseguido, podia eu sentir meus olhos saltando das órbitas; e o medo. O medo me envolvia aos poucos, justo, como uma coberta grossa. Porém eu sentia frio. E os meus temores dificultavam meus passos: "a iminência, a iminência", pensei. Eu estava entregue ao predador, eu era a caça.
Sua voz de cão ecoou por quarteirões, e percebi que estávamos, de fato, sozinhos. Ele estava bêbado, e aquele estado alterado de consciência o transformara em fera horrenda: os cabelos emaranhados, oleosos de todo o mal do mundo, e o hálito fervente à sede de sangue. Pensei na vida que gerava no meu ventre, nos aspectos que os dois partilhariam. Temi ter o diabo enrolado em minha tripas, alimentando-se de minha energia vital, e tornei-me fraca simplesmente à ideia. Tropecei, então, nos paralelepípedos da rua deserta.
Não quis imaginar meu corpo roliço de prenhe caído no chão, que cena patética deveria ser aquela. Senti uma pontada excruciante na barriga e temi, agora, somente pela vida do meu filho. Refleti sobre a minha infinita estupidez, sobre o risco que eu corria por ter arrancado porta afora de casa daquela maneira. Acaso permanecesse submissa no mesmo local, a surra teria sido leve. Mas fugir despertara nele a fome. Eu captava o ódio nas palavras dele, a loucura. Chorei, estirada no chão, a dor em meu ventre se agravando a cada lágrima. Eu ouvi seus passos, percebi que se aproximava e pude divisar finalmente, no escuro, o contorno de suas botas.
Urrei em decorrência do que veio a seguir: chutou-me o animal umas vinte vezes, desferindo golpes por todo o meu corpo. Acertou-me no rosto, em minha boca, e o jorro de fluido vermelho impediu-me de continuar gritando. Senti que algo mais se esvaía por entre minhas pernas, e morri um pouco ao constatar que era sangue. Quando percebeu que eu havia parado de chorar, carregou-me para a calçada e deixou-me à própria sorte. Tive a impressão de que uma vida se passara antes que eu perdesse a consciência, mas a lua no céu ainda era cheia.


Ó, Deus; e vós fizestes uma Elisa de mim.